terça-feira, 15 de setembro de 2015

DO JORNAL BESTA FUBANA

O RÁDIO E A ANTECIPAÇÃO DA NOTÍCIA





Fernando Sabino diz numa de suas crônicas que o rádio entrou na residência dos brasileiros pela sala de visitas e foi parar na cozinha, com o advento da televisão. Aqui em casa, não exatamente na cozinha, no banheiro. Porém não relegado a uma condição inferior, vez que é muito mais ouvido do que vista é a TV.

Desde cinco horas da manhã, quando tomo o primeiro banho antes da caminhada matinal. Ali, sempre presente, de domingo a domingo, anunciando os acontecimentos do dia e difundindo comentários de tudo o que é gente metida a entendida nos mais variados assuntos.

Testemunho assim a importância do rádio na formação da consciência política do nosso povo.

Não só do rádio, mas dos meios de comunicação como um todo: a TV e os jornais, e também os sítios na Internet, guardam uma relação simbiótica com o rádio, um alimenta os demais e vice-versa.

O rádio confirma ou antecipa a notícia. Dependendo da hora em que o sintonizemos.

Na madrugada, os jornais do dia já não terão tempo de registrarem o que ocorreu em
Estocolmo, Atenas ou Mossoró, naquele instante; mas o rádio sim, pois a informação terá sido captada em tempo real, via Internet e de imediato repassada aos ouvintes.

A “antecipação” da notícia às vezes é precipitada pela ansiedade de quem a transmite.

Vira premonição. Como aconteceu com um jovem repórter da Rádio Jornal, no Recife, em meados dos anos 80, quando eu exercia o meu primeiro mandato de deputado estadual, colado às lutas populares em ascensão. Uma espécie de plantão permanente, para o que desse e viesse.

Um pé na Assembléia Legislativa e o outro nas ruas.

Foi na ocupação do conjunto habitacional Montes Verdes, no Ibura. Transmissão ao vivo. O repórter narra a chegada do Batalhão de Choque da Polícia Militar, enviado pelo governador Roberto Magalhães, e o tumulto que se instala – gritaria, corre-corre, choro de crianças, vozes exaltadas:
– Há muita confusão, senhores ouvintes, pessoas podem ser feridas. Como sempre acontece, o deputado Luciano Siqueira já se encontra no local e, segundo lideranças comunitárias ouvidas pela reportagem, já teve um entrevero com o capitão Viana.
– Então ouça o depoimento do deputado – pede o locutor do estúdio.
– Ainda não é possível. O deputado parece estar encoberto pela poeira que se levanta no local do conflito, onde alguns policiais foram agredidos a pedradas.
– Ele foi agredido pelos policiais? É importante verificar isso.
– Vamos verificar, vamos verificar… e dentro de alguns minutos ele dará entrevista exclusiva para nossa emissora.
Mas não tinha jeito de encontrar o deputado, que ouvia tudo pelo rádio do carro, ainda se deslocando de casa para o bairro, agora o mais rápido que podia – para cumprir o dever. E não frustrar o repórter e os seus ouvintes.


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