sexta-feira, 18 de setembro de 2015

MEMÓRIAS URBANAS





Salto agora para a Currais Novos dos anos 20, quando a região ainda era dominada pelos coronéis, guardadores da Milícia de Feijó que, tanto no Império quanto na primeira república, tiveram seus valores, mesmo contestados e combatidos, mas o fato é que eles representaram uma realidade, realidade esta gritante, onde eles, ricos e poderosos, conviviam em contraste com o grosso da população, que levava vida miseranda e lhe era submissa.



Foco a Currais Novos pelos lados da Rua do Comércio, com seus becos memoráveis e vielas estreitíssimas, minguadas, esguias, a contracenar com a Rua Grande e a Avenida, em derredor da Matriz de Santana. Nesse tempo esquálido, Currais Novos passara a cidade, por obra e graça do deputado Francisco Ivo Cavalcanti, que nem conhecia direito a nossa cidade, mas que por interferências, quem sabe de amizades ou mesmo políticas, colocou Currais Novos no mapa do Brasil, assim se desfazendo o sonho do Acari, de ter Currais Novos sempre como sua eterna dependente.

Ainda não existia a Praça Cristo Rei - nem em sonhos - mas o nosso velho mercado já estava lá havia vinte anos.

Derrubados os quartos que serviam de casas comerciais, iniciou-se uma nova era na cidade. Acabou-se a Rua do Comércio, ergueram um monumento a Cristo Rei e um outro a Ulisses Telêmaco, afastados os dois, mas frente a frente; aproveitaram e puseram de pé a praça.

Tempos depois, o progresso, esse tirano indizível, colocou por terra a Rua do Boi Choco, de Rita Palitot, tendo em seu lugar surgido a nova Rua do Comércio, que mais tarde tomou o nome de João Pessoa. Com ela desaparecia também a legendária bodega do velho Galvão, a Pensão Popular, etc.










quinta-feira, 17 de setembro de 2015

MEMÓRIAS URBANAS

(Antiga Feira de Cereais)

(Negros do Riacho, anos 60)


Antigamente, dias de feira em Currais Novos era uma outra história; uma outra história bastante diferente da nossa atual triste realidade.

Pra início de conversa, a feira era localizada na Rua Lula Gomes, atravessando a Avenida Cel. José Bezerra, prolongando-se até a Rua João Pessoa, tendo como elo de ligação, o velho Beco de Chatô, ou o beco da troca, como assim passou para a história.

Mas o que mais me impressionava, na feira, como ainda hoje impressiona, são as bancas de "mangaios", essas mágicas bancas que vendem de tudo o quanto é apetrecho para o vaqueiro e agricultor. Nelas a imaginação corre solta, porque tudo que ali está exposto á venda é produto da criatividade sertaneja, muitas vezes se aproveitando de materiais que tem disponíveis ou reciclando, como é mais comum.

A mágica da feira é traduzida pelos vendedores ambulantes de banhas milagrosas, aqueles que, para atrair incautos e fregueses, expunham cobras, tijuaçus, porcos-espinhos, bichos-preguiças, gatos do mato, jaguatiricas, papagaios, araras, macacos-prego, etc., e os cantadores de viola, emboladores, cantadores de coco, recitadores de cordéis, gente nômade, assim como os tapuias, que surgiam e sumiam de repente, reaparecendo tempos depois, com alguma novidade.

A feira do barro, por exemplo, tocada pelos "negros do riacho", já não existe mais, nem tanto porque ninguém mais faça uso de potes, bules, alguidares, panelas, quartinhas e demais louças e artefatos de barro, mas porque os próprios negros hoje, dedicam-se, talvez, a outras atividades ou até a atividade nenhuma, não tendo tido o cuidado de repassar para os pósteros a arte milenar de moldar o barro.

Sabe-se pouco, mas muito pouco mesmo sobre a verdadeira história dos "negros do riacho" do Bonsucesso, pois eles próprios se negam a comentar, como se ainda temessem alguma coisa contra eles. De escrito mesmo, somente um livro escrito pelo Dr. Luiz Assunção sobre o tema; de resto, pouco, muito pouco mesmo sabemos sobre a sua verdadeira história. Sabe-se que, segundo a oralidade, chegaram aqui oriundos de quilombos de Pernambuco ou Porto Calvo (Alagoas), e são divididos ainda em dois clãs: caboclos e negros. Trajano Passarinho e Zé Banda foram antigos chefes conhecidos da comunidade quilombola de Currais Novos, tendo as negras Tereza ( a nova e a velha, mãe e filha) como últimas líderes da comunidade.

Hoje, a feira dos curraisnovenses da urbe, é realizada todos os dias, mas especificamente aos domingos pela manhã, ficando as feiras das segundas, a tradicional feira livre semanal, para os habitantes da nossa zona rural.

São as mudanças que movem as pessoas, os costumes, as regras, as políticas, as situações, as circunstâncias, enfim, move a própria cultura.  
  

   






quarta-feira, 16 de setembro de 2015

MEMÓRIAS URBANAS

(Idos de 60: inauguração do chafariz de Santa Maria Gorete).


Diríamos nós que, a partir daquele ano de 1972, quando o governador Cortez Pereira inaugurou o nosso sistema de abastecimento d'água, vindo de Acari, que estávamos livres para sempre do fantasma da falta de água e de todos os problemas dela advindos. Mero engano, porque era a partir daquele momento de fartura e de bonança que deveríamos ter criado uma consciência racional com relação ao nosso sempre e maior problema, a falta d'água gerada pela "variante trágica".

Na gestão do então prefeito Mariano Guimarães (1963-1969), tentando amenizar o problema da falta d'água nas comunidades urbanas da cidade, criou o paliativo benéfico dos chafarizes, que eram em número de três, salvo engano, que localizavam-se: um ao lado da capela de Santa Maria Gorete, um segundo as margens do Rio São Bento (hoje dentro dos muros do Clube de Caça e Pesca) e um terceiro localizado a Rua Dix-Sept Rosado, bem perto ao curral de Zé Pinheiro Braga.

Cinquenta e três anos depois, cá estamos nós na mesma situação, só que desta vez com o Gargalheira seco, nossos reservatórios igualmente secos, e o nosso prefeito Vilton Cunha, patrocinando a perfuração de poços e erguendo chafarizes nas comunidades da cidade e da zona rural.






terça-feira, 15 de setembro de 2015

MEMÓRIAS FATAIS



(??????????????????)


É engraçado como em algumas cidades pelo Brasil, afora ou adentro, ainda se mantenham nomes de generais-ditadores do golpe militar de 1964, ainda de pé, de "ferro e sinal", como "heróis" dignos de uma epopeia sinistra e medonha para a história do nosso país.

Em Currais Novos, por exemplo, ainda existe uma rua com o nome de um desses ditadores, que foi o General Costa e Silva, aquele que assinou o AI-5 e lascou todo mundo do primeiro ao quinto.

Existe também uma Escola Municipal com o nome do Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, aquele mesmo que deflagrou todo o rosário de mandos e desmandos ditatoriais subsequentes.

Seria bom se a nossa edilidade hoje, vivendo livre das amarras do cerceamento e em pleno estado de direito democrático, tome a iniciativa e mude esses nomes, pois eles nada representam para o nosso município. O que fez Castelo Branco para merecer, em Currais Novos, um nome de escola? Será que Costa e Silva conhecia pelo menos a nossa cidade?  

Fazendo isso, isto é, mudando esses nomes, nos livraremos de, pelo menos, duas tenebrosas lembranças materiais desse período nefasto, e em seus lugares colocaremos dois nomes de curraisnovenses dignos, honrados, não manchados com sangue de irmãos brasileiros.



DO JORNAL BESTA FUBANA

O RÁDIO E A ANTECIPAÇÃO DA NOTÍCIA





Fernando Sabino diz numa de suas crônicas que o rádio entrou na residência dos brasileiros pela sala de visitas e foi parar na cozinha, com o advento da televisão. Aqui em casa, não exatamente na cozinha, no banheiro. Porém não relegado a uma condição inferior, vez que é muito mais ouvido do que vista é a TV.

Desde cinco horas da manhã, quando tomo o primeiro banho antes da caminhada matinal. Ali, sempre presente, de domingo a domingo, anunciando os acontecimentos do dia e difundindo comentários de tudo o que é gente metida a entendida nos mais variados assuntos.

Testemunho assim a importância do rádio na formação da consciência política do nosso povo.

Não só do rádio, mas dos meios de comunicação como um todo: a TV e os jornais, e também os sítios na Internet, guardam uma relação simbiótica com o rádio, um alimenta os demais e vice-versa.

O rádio confirma ou antecipa a notícia. Dependendo da hora em que o sintonizemos.

Na madrugada, os jornais do dia já não terão tempo de registrarem o que ocorreu em
Estocolmo, Atenas ou Mossoró, naquele instante; mas o rádio sim, pois a informação terá sido captada em tempo real, via Internet e de imediato repassada aos ouvintes.

A “antecipação” da notícia às vezes é precipitada pela ansiedade de quem a transmite.

Vira premonição. Como aconteceu com um jovem repórter da Rádio Jornal, no Recife, em meados dos anos 80, quando eu exercia o meu primeiro mandato de deputado estadual, colado às lutas populares em ascensão. Uma espécie de plantão permanente, para o que desse e viesse.

Um pé na Assembléia Legislativa e o outro nas ruas.

Foi na ocupação do conjunto habitacional Montes Verdes, no Ibura. Transmissão ao vivo. O repórter narra a chegada do Batalhão de Choque da Polícia Militar, enviado pelo governador Roberto Magalhães, e o tumulto que se instala – gritaria, corre-corre, choro de crianças, vozes exaltadas:
– Há muita confusão, senhores ouvintes, pessoas podem ser feridas. Como sempre acontece, o deputado Luciano Siqueira já se encontra no local e, segundo lideranças comunitárias ouvidas pela reportagem, já teve um entrevero com o capitão Viana.
– Então ouça o depoimento do deputado – pede o locutor do estúdio.
– Ainda não é possível. O deputado parece estar encoberto pela poeira que se levanta no local do conflito, onde alguns policiais foram agredidos a pedradas.
– Ele foi agredido pelos policiais? É importante verificar isso.
– Vamos verificar, vamos verificar… e dentro de alguns minutos ele dará entrevista exclusiva para nossa emissora.
Mas não tinha jeito de encontrar o deputado, que ouvia tudo pelo rádio do carro, ainda se deslocando de casa para o bairro, agora o mais rápido que podia – para cumprir o dever. E não frustrar o repórter e os seus ouvintes.


MEMÓRIAS URBANAS - Comício



Observando a fotografia acima, que retrata um comício em lombo de caminhão, mas já com as  caixas de som modernas, pude recordar os antigos comícios realizados aqui, em Currais Novos, nos anos 60/70, quer fossem do "Bacurau" ou do "Fechador", ou do "Verde" e do "Vermelho", mais ainda, do "Cigano" e do "Velho", como assim o povo referia-se aos partidários de Aluízio Alves e Dinarte Mariz, respectivamente.

Do lado do "Bacurau", o mais interessante era mesmo os oradores domésticos ou a prata da casa, como chamavam, porque em dias em que havia "medalhões" estaduais, eles não podiam deitar a fala no microfone, pois eram impedidos pelo locutor-oficial, quer fosse Dedé Soda ou Assis Silva. Mas em comícios domésticos, a grande atração mesmo eram esses oradores "de casa", como Mané Batista, Cabo Adolfo, Laércio Ferreiro, etc. Do lado do "Fechador", o velho Chico Rodrigues também abrilhantava as noites de eloquência caseira. Havia também os cantores e compositores caseiros, e nisso destacavam-se Aruca e Capiluca, que engendravam marchinhas e frevos dos mais exóticos possíveis, principalmente nas campanhas de Radir Pereira, pelo PTB.

Nesses comícios domésticos, Bastos dos Bonecos também fazia suas performances, com a sagacidade que Deus lhe concedeu, mantendo a assistência sempre atenta e conectada ao seu estilo irreverente.

Mas, contou-me o amigo professor João de Zé Maneco que, em 1968, na reta final da campanha de Radir Pereira para prefeito, contra o Dr. Gilberto Lins, inventou Radir de realizar um comício no Totoró, pois ali reunia, além do Totoró, Quandú, Trangola e adjacências, que juntava muita gente, e aproveitando que o Dr. Gilberto iria realizar o seu na Rua Cândido Mendes, Radir mandou convidar dois bons oradores para aquela noite, mas os oradores convidados não puderam comparecer, e o jeito foi mesmo tocar a assembléia popular se utilizando dos "valores" que tinha em mãos. Dedé Soda anuncia o primeiro orador: "Vai falar, representando o homem sofrido do campo, Mané Batista". E Mané, dentro de sua indumentária, desliza: "Compadre Radir, você é um verdadeiro cheque sem fundo". Radir manda suspender o discurso e dedé chama o outro orador: "Vai usar agora da palavra o representante dos mineradores e dos trabalhadores: Mestre Alfredo Luis de Souza". E, o mestre inicia com o famoso prefácio:

- Boa noite meu povo analfabeto e ignorante do Totoró...

Radir, então, chama Dedé e manda acabar o comício naquele exato momento, dizendo:

- Desse jeito, com esses oradores, eu tô é lascado do primeiro ao quinto, logo aqui no reduto do adversário.     


MEMÓRIAS URBANAS

(Festa de Santana -1973 - Parque de diversões armado na Rua Lula Gomes)


Tinha eu 14 anos quando, naquela Festa de Santana, o parque foi armado na Rula Lula Gomes. Era mais um ano cruento de ditadura militar - auge dela - pois havia três anos em que a nossa seleção sagrara-se tricampeã no México. No parque, a inovação era uma nova roda gigante fora dos padrões convencionais, que foi armada próxima a parede do cemitério. Mas, de novidade mesmo, naquele ano e naquele parque, foi o lançamento de uma música de um cantor totalmente desconhecido - por nós - chamado Raul Seixas. A música era "Ouro de Tolo", e tocava no serviço de difusora do parque, de dez em dez minutos.